| Oficinas de artesanato, música e informática promovem reinserção de jovens | LIBERDADE ASSISTIDA
Adolescentes criam novas oportunidades com medidas socioeducativas
Paola* tem 17 anos, está grávida e já é mãe de uma criança. Ela cumpre medida socioeducativa em Liberdade Assistida na Unidade Social e Educacional de Tibagi. Todas as terças e quintas-feiras participa de oficinas de informática, artesanato, música e recreação junto de outros jovens que cometeram algum ato infracional. "Mudei bastante. Antigamente eu aprontava, brigava na rua, vivia correndo do Conselho [Tutelar] na praça", revela a adolescente, que recebe a medida por ter sido flagrada na rua desacompanhada de adulto responsável após o horário permitido para crianças e adolescentes, 22 horas. "Agora não saio mais, não bebo mais, aproveito bastante a minha casa e levo uma vida muito mais tranquila", conta a futura mamãe.
O exemplo de Paola é semelhante ao de muitos jovens que passam pela Unidade Social. "A maioria está lá por ter cometido pequenos atos infracionais, como ter se envolvido em briga ou por estar fora de casa à noite", indica a secretária municipal da Criança e da Assistência Social, Márcia Silveira Novakovski. "Depois que passam pela Liberdade Assistida, começa uma nova vida. A transformação é visível", garante.
A transformação a que se refere Márcia é possível graças ao trabalho de instrutores que acompanham o desenvolvimento de cada adolescente, como Idejanice Regina de Oliveira, diretora da Unidade. "Representa muito para a vida deles. Chegam aqui com uma mentalidade e saem bem diferentes", assegura. "Aqui eles encontram tarefas prazerosas e que ainda são oportunidades de geração de renda; encontram amigos e até os outros jovens com quem podem ter tido uma briga e aos poucos fazem as pazes. Na Liberdade Assistida, estes meninos e meninas aprendem a conviver e têm sua reintegração na sociedade, repensam valores", resume a diretora.
É com este pensamento que Alice, de 20 anos, espera finalizar sua 'temporada' na Liberdade Assistida. Ela é reincidente e mesmo depois de adulta recebeu a orientação para participar das atividades. "Agora quero terminar o processo e não mais voltar. Até quero voltar, mas só para passear, rever os colegas", afirma a já dona-de-casa. "Na verdade como as oficinas são boas, a gente acostuma e dá vontade de vir a semana inteira, mas nunca mais por aprontar alguma coisa", ressalva.
Gilberto, no dia da visita da nossa reportagem, completava 18 anos e concluía sua medida socioeducativa. Seu desejo de aniversário era "encontrar um emprego e seguir a vida". Ele foi levado às atividades da Unidade Social por ter se envolvido numa briga de rua, mas de agora em diante tem certeza de que isso não se repetirá. "Não precisa mais, já aprendi. Eu era muito piá, agora já sei o que é certo e errado", avalia.
Os três jovens encontram no artesanato uma distração interessante. "Eu não sabia fazer nada disso, agora faço pulseiras, chaveiros, cestas de jornal, brincos", diz Gilberto. A sala da oficina ministrada por Mauricio Fernando Nascimento está repleta de objetos decorativos, bijuterias e utensílios artesanais. Para o instrutor, mais que peças bonitas, o trabalho rende mudanças significativas de comportamento. "É uma oportunidade de integração. A atividade manual ocupa a mente, desenvolve habilidades e é também uma forma de eles conseguirem algum dinheirinho", descreve. "E ainda aprendem a reaproveitar materiais. Aqui quase tudo é feito com lixo reciclado". O artesanato está em exposição na Unidade Social e em época da Copa do Mundo, não faltam adereços com as cores da bandeira brasileira. Até réplicas da taça da Fifa estão à mostra.
Todos os adolescentes são acompanhados por assistente social e psicóloga, desenvolvem atividades durante seis meses. Atualmente, 28 jovens estão recebendo a orientação e outras 60 crianças têm a mesma estrutura para ações de contraturno escolar, que inclui também reforço nas disciplinas.
Liberdade Assistida
O artigo 118 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê o cumprimento de medidas socioeducativas em Liberdade Assistida para adolescentes que cometeram atos infracionais. Ao contrário do que preconceituosamente muitas pessoas acreditam, as medidas socioeducativas não representam cumprimento de pena, mas sim o acompanhamento especializado para auxiliar e orientar o adolescente.
A intenção, como descreve Márcia, é promover socialmente o adolescente e sua família. "Toda a estrutura está organizada de modo a oferecer ao adolescente que cometeu algum ato infracional a orientação necessária para que seja reinserido na sociedade", explica.
Uma das funções da Liberdade Assistida é iniciar a profissionalização do adolescente e intermediar sua inserção no mercado de trabalho. "Por isso é importante que as pessoas deixem de lado o preconceito e abram espaço para que os jovens tenham uma oportunidade, um recomeço num caminho bom", finaliza.
*Todos os nomes citados são fictícios para preservar a identidade dos jovens
Fotos e Texto: Das Assessorias |
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